Uma Granja para todos: Igualitária - Umbigo Literário
Artigos Indicados Deborah Brum

Uma Granja para todos: Igualitária

Para sermos a Granja que queremos, é necessário dar voz à periferia inserindo-a na região, pois se a periferia chegou à Granja Viana anos atrás, hoje ela é parte da periferia.

Não existe liberdade sem igualdade – isso é fato -, e não se pode negar o quão desigual é a “nossa” região. Se há, de um lado, condomínios sofisticados, cercados por muros e guaritas, representações ideológicas e segregárias que não possuem apenas a função de proteger, mas de delimitar o que é diferente – no caso, as desigualdades sociais, econômicas e culturais -, do outro, há uma imensa comunidade carente de condições básicas para viver. No entanto, esse outro lado não é outro, mas nosso.

Sem a participação efetiva da comunidade, seja ela qual for, e de políticas públicas que tragam benefícios para a população mais carente, pouco avançaremos em relação aos problemas enfrentados em Carapicuíba e Cotia.

Como enfatizado nos discursos, a educação é essencial para modificarmos qualquer estrutura social. Escolas de qualidade, com espaços adequados e bem cuidados, cursos gratuitos, profissionalizantes, professores preparados, uma escola sem violência, onde alunos e educadores sejam tratados com respeito. Sem demagogia, gostaria que as instituições educacionais públicas fossem iguais às escolas privadas de “nossa” região. Assim como meus filhos, que sempre tiveram oportunidades, torço para que todas as crianças gozem das mesmas, sejam elas de dentro ou de fora dos muros. Mas por que educar o povo se a ignorância é instrumento de controle dos políticos?

Outra questão fundamental é a mobilidade de Carapicuíba, Cotia e região. Se não há calçadas e o trânsito é cada vez mais caótico, o cidadão mais humilde, aquele que acorda ainda de madrugada para ir trabalhar em São Paulo, sofre as consequências mais drásticas de um transporte público ineficiente. E o dia dele sempre é longo, parece interminável no trânsito parado da Raposo Tavares, quando ele volta para casa, cansado e com fome, sem nenhuma perspectiva de melhora na sua qualidade de vida.

Não posso esquecer de mencionar os botecos, onde os donos, irresponsável e ilegalmente, vendem bebidas alcoólicas para menores que estudam em escolas particulares, tão perto de nós – cenas observadas por detrás das janelas dos carros; mas nos calamos, e por quê? Mas poderia ser pior, a gente pensa, acreditando que o chefe do tráfico, aquele que manda na favela da esquina, jamais aliciará um de nossos filhos porque a gente está longe de tudo isso. Mentira. Todos somos vítimas e responsáveis pelo sistema. Parece paradoxal, mas quando entendermos que o individual e o coletivo fazem parte de um todo, de um único, iniciaremos um processo no qual justiça e liberdade serão as bases das modificações sociais.

O impacto ambiental é consequência de uma urbanização não planejada ou de sua falta, da ausência de políticas públicas de zoneamento, saneamento, de obras superfaturadas ou de recebimento de propinas pelos políticos – diriam os editoriais dos jornais e revistas de grande circulação. A verticalização, embora seja um problema a ser discutido, é pior do que a favelização e das condições precárias nas quais vive a maioria da população de Cotia e Carapicuíba? – eu pergunto.

Para finalizar, assumindo também a minha passividade, tantas vezes, diante de tantas desigualdades, é preciso destacar o trabalho maravilhoso de algumas instituições da região que, por acreditarem numa sociedade melhor, num todo, oferecem às comunidades mais carentes o direito fundamental: a educação.

Eu quero uma Granja para todos.


Algumas das inúmeras instituições da região:
Oca – Escola Cultural
Casa do Moinho
Projeto Âncora
Ong São Joaquim
Cotolengo SP
Casa de Apoio


Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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