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Sem Palavras

Eu quero contar para você uma história, mas o que eu vi ainda não existe em palavra.

Então não sei se o que vi irá existir para você. Como é algo que somente eu vi, mais ninguém, e nem você, o que vi existe só para mim. E para você, que ainda não viu, continuará não existindo, não é? Se você acreditar no que irei contar, talvez comece a existir para você.

Difícil de entender, porque qualquer coisa que não exista em palavra parece não existir. Eu sei.

Qualquer pessoa, por exemplo, mesmo que não conheça seus pais, acredita que eles existam, porque todo mundo tem em palavra pai e mãe. Ninguém precisa conhecer os pais de um amigo para saber que é verdade. Mas minha história, a que quero contar, é diferente. Se eu não contar para você o que vi, o que vi nunca existirá em palavra, e minha história deixará de existir.

Outro dia, eu tentei contar aos meus filhos, mas eles estavam com sono, muito cansados. Cansado não se consegue inventar, não é?

Agora, imagina você, eu estou preocupada porque estou ficando com sono e fico com medo de não conseguir terminar minha história. Já é muito tarde, e eu não dormi bem na noite passada. Os meus cachorros – tenho quatro – não gostam nem um pouco do cachorro do vizinho. Meu vizinho, muito distraído, não percebeu que seu cachorro fugiu e veio ficar em frente ao meu portão.

Moro numa casa grande, com um terreno ainda maior. Meus cachorros correm pra lá e pra cá, e só param quando cansam. Nesta madrugada, eles latiram muito porque não queriam que o cachorro do vizinho ficasse em frente ao nosso portão. Eu, que já estava preocupada por não ter uma palavra para aquilo que vi, não dormi com tanto latido e algazarra. Eles correram, sem se cansarem.

Já está se cansando de mim? Ah, eu gosto muito dos meus cachorros! Você não conhece meus cachorros, mas como cachorro existe em palavra, acho que está acreditando em mim. Mas na história que eu vou te contar, o que vi ainda não existe em palavra.

Então? Você acreditará?

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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