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Por Onde Passa um Boi, Não Passa uma Boiada

Meu Filho e o Vestibular

Domingo, dia do vestibular de uma das faculdades mais conceituadas de São Paulo. O dia amanhece; se fossem bois, os candidatos acordariam com o som do berrante, mas, sendo gente, é o despertador do celular que toca. Provavelmente um iphone 7, o que mais representa o público-alvo dessa instituição de mercado.

Meu filho e eu optamos por dormir, no dia anterior, na casa do meu pai. Não queríamos arriscar com o trânsito da Raposo Tavares, com os imprevistos, poderíamos dizer, caso não fossem tão corriqueiros e previsíveis os acidentes, a irresponsabilidade dos motoristas, a falta de manutenção da estrada. Não dá para arriscar, meu filho diz.

Ainda com os filhos pequenos, meu marido e eu, não aguentando mais São Paulo, resolvemos mudar para Cotia, perto do mato, à procura de uma vida mais tranquila, onde pudéssemos criar as crianças mais livres, de pés descalços na terra, inventando nosso tempo, saindo do tempo imposto.

Aqui, quando eu abro a janela do meu quarto, ainda vejo o horizonte. Parece piegas isso que escrevo, mas acredito que a visão do horizonte nos proporciona a compreensão de que não somos além e, assim, nos recolocamos naquilo que de fatos somos, dignificando nossa insignificância diante do mundo com humildade.

Chegamos à casa do meu pai, um apartamento amplo num bom bairro, onde as pessoas saem a pé, caminhando à procura de algo, e é na sorveteria famosa que encontram o verdadeiro prazer. O simples é sempre necessário, é o que penso quando vejo essa gente se lambuzando com as bolas de sorvete colocadas em casquinhas crocantes, feitas na hora.

Ainda é sábado à noite, dia anterior ao vestibular, e saímos para jantar.

Meus pais, filhos de imigrantes, se fizeram sozinhos e deram-me a possibilidade de crescer numa família de classe média alta. No entanto, fui exposta às realidades que, mesmo não sendo minhas, me eram mostradas, para que eu jamais perdesse a noção de minha origem. E ainda é assim comigo, com meus filhos.

O restaurante é um japonês elegante, cheio de gente produtiva para nosso sistema. Chego com minha calça jeans surrada, camisa e meu sapato confortável, pois odeio tudo que me aperte. A família, já acostumada com meu jeito, não pede mais que eu me arrume adequadamente. Minha roupa é sempre essa. Já estou habituada aos olhares assustados dos manobristas que, quando veem o meu carro sujo de barro, e uma baixinha saindo de um caminhão, falam um boa noite, senhora, sempre constrangidos com a situação. O recepcionista, muito arrumado, abre a porta e sempre pergunta, pois, não? Então, descobrem que sou filha do meu pai, um cliente antigo: “Eles estão te aguardando na mesa, no segundo andar.” E outros olhos me olham, do sushiman aos clientes, mas eu passo, pois sou um boi diferente dessa boiada, eu sei. Jantamos bem, conversamos, a hora avança e vamos embora. Pego meu carro e sei que logo mais, quando eu chegar ao apartamento dos meus pais e for dormir, os funcionários ainda não terão chegado às suas casas.

A noite está quente e o barulho da rua nos atrapalha o sono, o meu e o da minha filha. Uma noite maldormida, no domingo, com céu ainda escuro, eu acordo. Enquanto preparo o café, escuto o despertador do celular do meu filho tocando. A família inteira acorda, pois, entre tantas etapas da vida, o vestibular é coisa importante e tem que ser enfrentado.

Garoto bom, meu filho. Não é porque sou sua mãe, não. Pessoa do bem, se esforça e encara as dificuldades, justo, correto, mas é sempre assim, meu filho, na hora que a gente cresce, vamos para o abate. Lá fora não tem moleza, garoto. Você é um nelore ou um boi pantaneiro? É, é assim que irão te tratar, e quando abrirem as porteiras, apenas alguns bois passarão, os de raça pura, moleque, e você já pensou? O filho daquele reprodutor de boa genética, forte, robusto, procriador, estará lá com você tentando passar pela mesma porteira, na comitiva sem esperança para aqueles que já nasceram sem chance, diferentes de você, moleque! E os sem chances, o que eu faço com isso, lamento por eles, assim? Só?

Toca a campainha, é meu marido. Assim como eu, ele quer participar, dar uma força ao filho porque também sabe que não existe justiça para o boi que nasceu em terras secas, o que não é o caso do nosso filho, mas dói. Boi magro não vai para o abate, vira alimento para os carcarás do sistema.

Meu filho está ansioso; mesmo sendo um boi bem tratado, adequado para o comércio, terá que concorrer com raças apuradas pela educação, com a aquisição de um capital cultural impressionante, adquirido por viagens, cursos de inglês e chinês, pelas melhores escolas e roupas de marca para se padronizarem e, assim, terem mais chance de melhorar sua espécie.

Estamos perto da faculdade. Num bairro elegante como esse, as ruas estreitas não possibilitam o tráfego de transportes públicos, e eu penso: como a gente chegou até aqui? A globalização, que uniu os mercados, expandiu a comunicação, também fez o homem mais excludente e excluído nas suas relações. Mas contam para a gente outra história, a da carochinha, e os crentes louvam o neoliberalismo como sendo o profeta da esperança, sem questionar onde estão os verdadeiros valores humanos, aqueles que nos eram essenciais a fim de sermos uma sociedade justa.

Não, não há ônibus, nem gente a pé. Todos, inclusive nós, chegamos de carro.

A multidão está organizada, enfileirados perto das cercas que limitam o espaço do prédio e o da rua. Grupos que já se conhecem cumprimentam-se, juntam-se para, na massa, serem mais.

Conversamos com nosso filho, meu marido e eu, dizendo como tudo dá certo, mesmo quando não parece que dá, e é assim que se leva a vida, além do mais, você fez seu melhor.

Hora de entrar, a porteira abre.

Agora, ele é um boi da boiada.

Acenamos para ele, ele olha para nós e diz, obrigado.

À procura de um café, meu marido e eu damos uma volta no quarteirão.

Observo os candidatos, todos brancos, e a arquitetura imponente da instituição de ensino voltada para o mercado. Formará administradores e economistas, ensinando-lhes como fazer uma aplicação de sucesso, dar lucro à empresa, gerar, gerar e gerar cada vez mais, porque assim deve ser. Engodarão e engordarão os novilhos com palestras, tecnologia, aulas, preparando-os para o abate. E quando, finalmente, estiverem preparados, passarão por outra porteira por onde, mais uma vez, nem todos os bois passam.


Texto escrito especialmente para a Revista Infame. Publicado em 19/11/2017.

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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