Crônicas Deborah Brum

Pecado

Estou grávida de sete pecados. Por serem eles os sete pecados capitais, meu peso é enorme. 

Apenas com uma mordida na maçã engravidei. Um deslize, uma tentação que já havia sido anunciada através do espelho mágico. Porém, minha impetuosidade, mesmo que serena, impede-me de ver o destino como um prolongamento de meus atos. Mordi a maçã!

Se fosse a maçã um produto do diabo, eu, provavelmente, não estaria grávida, pois do diabo se espera um maior entendimento dos pecados, enquanto de Deus aguardamos o castigo. Com Deus não se brinca! O capeta até aceita uma ironia, mas Deus é reto, austero, uma partitura difícil de ser esmiuçada: traz consigo uma melodia que não tolera improvisos.
 
Por isso, digo: a maçã era um produto de Deus! Se fosse a maçã do diabo, ele, por ser mais fluido, não me castigaria com uma gravidez tão pesada. O maligno teria uma tolerância maior ao meu pecado de morder a maçã. Deus nos dá a eternidade e o diabo, o momento presente. 
 
Carrego comigo essa barriga preenchida com o castigo dos céus, como uma prova irrefutável dos anseios avassaladores que me impedem de raciocinar perante uma tentação. Numa terra onde humanos e abutres dividem a mesma carniça, uma maçã, vermelha, suculenta e brilhante, mereceria o aval de Deus. 

Talvez Deus não tolere os pecados por não aguentá-los ou, quem sabe, seja para ele uma agonia muito grande viver em busca da perfeição com tantos pecados a tentá-lo. Não permite que falhemos, pois isso revelaria sua vulnerabilidade, um erro na sua grande criação: o homem. E, por sermos nós a sua imagem e semelhança, é constrangedor, mas provável, que Cristo tenha se entregado a alguma perversidade da vida.

Não há dúvidas de que fui castigada! Logo, eu! Uma mulher sem maldades que não resistiu à tentação de Deus! 

Meu caminhar fica mais lento a cada dia. Minhas pernas cansadas já não conseguem sustentar aquilo que está no meu ventre. Um peso! Um desalento… murcha em mim a vontade!  Os pecados ganham forma, alma. Covardemente, sugam de mim os nutrientes necessários e o ar. Estou completamente fatigada!

Estou ciente da minha fraqueza quanto aos meus desejos, pois, de fato, todos eles provêm de instintos primitivos que, acredito eu, seja um resquício de uma genética inferior. Se meus genes fossem superiores, eu entenderia mais a Deus e descobriria um modo de deflagrar em mim uma postura mais divina. É preciso que os pecados nasçam para que eu não morra preenchida deles.


Deborah Brum
Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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