Deborah Brum

Mulher de Meia Tonelada

Imagem: Botero

Foi uma cena grotesca de se ver: a mulher pendurada no teto pelas mãos, em um gancho; ele, o marido, descarnando-a com um grande facão para retirar as camadas de gordura acumuladas em trinta anos de casamento.

Casou ainda virgem de alguma coisa que sua mãe não havia explicado a ela quando ainda era uma senhorita, mas compreendeu por instinto, que só deixaria de ser virgem quando se tornasse de fato mulher. Seu nome: Elenita.

Antes de se casar, chamavam-na Nitinha,  pois ainda possuía uma memória de esperança no canto dos lábios. Verdade que não era uma beleza de dar inveja à mulher feia, mas de agradar à sogra; uma beleza de foto sépia.

Buscava diversão nos supermercados do bairro, numa região onde todas as casas possuíam azulejos decorados na fachada. Muitos Bons Dias eram dados e recebidos sem serem de fato verdadeiros. Mas ela sempre sorria.

A cada compra, olhava meticulosamente cada produto, verificando a quantidade de sódio existente para não interferir na pressão arterial já alterada do marido. Todo dia um novo cardápio o aguardava quando chegava faminto daquilo que deixara para trás. Pendurava as chaves antes mesmo de lhe dar um beijo: a boca de Elenita sempre aguardava, mesmo que fosse uma bitoca, que jamais acontecia.

Sentavam-se à mesa de pés descalços; dizia ele que isto o ajudava na digestão lenta de seu organismo. Elenita saboreava a comida no fundo da língua, num desejo feroz de engolir o que quer que fosse rapidamente. Sempre era a primeira a falar e a se calar. Falava e escutava aquilo que ele queria, mesmo que isto lhe provocasse uma sensação de televisão esquecida ligada, de madrugada, quando todos ainda dormem. Sofrer? Não sofria. Ainda lhe restava um tanto de esperança nos cantos dos lábios. Vestia manequim 38 desde a adolescência, quando sua mãe, delicadamente, mandou-a fechar a boca para arranjar um bom casamento. Não sabia se havia casado por conta do tamanho de sua cintura ou se outra coisa chamou a atenção daquele homem que tornou-se seu marido.

Acontecia, quase que numa rotina, de sentir seu corpo levitar pelo peso da angústia de não saber o que de fato acontecia. Havia dias que se explicava quase como um dicionário explica uma palavra objetiva como cadeira. De um modo geral, achava-se mais parecida com um eco – algo que grita num abismo  e se é ouvido da mesma maneira num vazio: um espelho daquilo que se é falado.

De fato, se explicava , mas jamais se fazia entender.

Tinha escolhas a fazer e tomá-las era transformar tudo o que conhecia e não sabia se acreditava, em algo que definitivamente lhe era desconhecido. Nunca soube ao certo se aquilo que escolhia faria algum sentido. Procurava um destino que estivesse no outro – no caso, seu marido.

Porém, o destino daquele homem, não era nem mesmo dele. Nunca foi adepto a extravagâncias, de celebrar a vida. O máximo que conseguiu foi plantar uma muda de manjericão num vaso da horta de casa. Algo muito sem graça para pessoas que possuem a coragem de escolher seu próprio destino.

Era admirável a persistência que ela tinha; quase uma teimosia compulsiva de criança quando está aprendendo a engatinhar. Fazia tudo que era possível para agradá-lo, sem nada receber além do “vasinho” de manjericão. E ele, sempre ao saborear um prato em que a erva era utilizada, não cansava de dizer, se gabando, que a muda só havia crescido porque ele a havia plantado.

Havia um pacto entre eles: serem um casal normal: casaram, tiveram dois filhos, levaram os filhos para conhecer o mar, sentavam à mesa,  ela mulher e ele homem.

Jamais então, alguém poderia suspeitar, que aquela mulher, Elenita, que agora pesava quase trezentos quilos poderia pedir um tipo de favor deste ao marido: – Não aguento mais os quilos que ganhei!

Deu-lhe um facão e pediu que lhe arrancasse toda a gordura que havia adquirido ao longo da sua vida com ele. – Você me deve isto!

Como era um homem medroso, hesitou. Porém, ao ver que ela havia perdido aquela esperança no canto dos lábios, notou aquilo que nunca havia notado: amava Elenita de verdade. Por amor, afiou a faca, a pendurou no teto e fez aquilo que ela havia pedido.

No final, pouco sobrou de Nitinha.

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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