Artigos Indicados Deborah Brum

Muito Discurso e Pouca Ação

As cenas aqui descritas foram criadas por mim. No entanto, só crio e recrio por ter um olhar para o mundo, uma parte vivente, não um juiz, diria Nietzsche. Como nem todo sofrimento tem explicação, tento fazer desta ausência de respostas um modo novo de ser através da ação, a única que posso: escrever. Assim, à procura daquilo que sou, agradeço o encontro com Nietzsche, as marteladas que dele tomei com suas obras.

Cena I

Vítima de estupro conversa com pastor

̶  Pastor, fui estuprada. Preciso fazer um aborto.

̶Irmã,  a coisa mais sagrada para Deus é a vida.

̶  Mas, Pastor… se eu não abortar, eu me mato.

̶  Ah, Irmã…aí é seu livre arbítrio.

Cena II

Filho despede-se do pai para ir para balada.

̶  Tô indo, pai.

̶  Já? Juízo, filhão. Vê se não vai fumar maconha, hein!

̶  Falô, pai. Pode deixar.

(o filho está saindo, o pai o chama)

̶  Oh, filhão.. leva este uísque para vocês se divertirem. Single malte!

Cena III

Duas estudantes, num carro, conversam.

̶  É, eu sou super a favor das cotas. Pô, este papo de meritocracia é maior furada.

̶  Se é. Imagina que negro tem chance no Brasil.

̶  Porra nenhuma de igualdade!

(Chegam ao estacionamento, um homem negro aguarda seu carro. Elas saem do carro, e a motorista entrega a chave do carro para ele)

̶  Não, eu não trabalho aqui.

̶  Foi mal..

Cena IV

Dois amigos conversam ao telefone

̶  E aí, véio? Bora fazer um churras?

̶  Cara, eu não como carne, lembra?

̶  Porra, verdade, esqueci. E o lance com a Laura?

̶  Nem te conto, bicho. Puta gostosa! Comi ela ontem.

Cena V

Três amigas grávidas, após a aula de yoga, conversam no vestiário da academia.

̶  Eu já falei para meu médico: tem que ser parto normal.

̶  Eu também. Nem pensar numa cesárea! E você, Lúcia?

̶  Eu? Eu quero cesárea, tenho medo de parto normal. Pressão alta, já viu… Bem, meninas, tenho que ir.

(Lúcia despede-se, com beijinhos)

̶  Nossa! Que horror! Deve ter até agendado a cesárea.

̶  Querida, tem gente que não nasceu para ser mãe.

̶  Você falou tudo, amiga!

Escrever ou falar sobre gente é sempre perigoso, porque o Homem, ser ideológico, defende suas opiniões achando que são verdades e, dessa forma, limitam seu mundo àquilo que pensam.

Mesmo as formas mais amenas de mania de perseguição geram atos violentos, repercutindo, principalmente, nos discursos radicais que, nem sempre, estão embasados em comprovações e são disseminados sem qualquer compromisso com as consequências desastrosas provocadas pelas suas falsas verdades. A mania de perseguição, sensação muito atual, está vinculada ao narcisismo da sociedade contemporânea. Parece que todos se sentem perseguidos por aqueles que são diferentes e, como forma de proteção, reagem das mais diversas formas. No entanto, as ações perdem a importância diante de discursos empobrecidos de potência, não trazendo mudanças significativas ou positivas para o contexto social, humano. E tais discursos, elaborados segundo explicações errôneas e falsas, ganham adeptos que, tais como aqueles que geram o discurso, os propagam por serem também ressentidos. Assim, junto a eles, a hipocrisia se faz presente e ganha força.

A luta pela vida é algo natural, aquilo que acontece, simplesmente, por estarmos vivos. O Homem, além de buscar a saciedade de suas necessidades naturais, luta pelo êxito, e isso, quando ganha uma importância excessiva, passa a ser a raiz do ressentimento. Uma das características do ressentimento é a generalização, ou seja, a potência individual é reduzida, afastando o sujeito de sua verdade e transportando-o para o senso comum, sem que haja critérios na sua escolha.

No sistema capitalista, no qual o êxito é entendido como reconhecimento financeiro, as qualidades individuais verdadeiramente criadoras são aprisionadas, e, deixando se ser potência, viram ressentimento. Quantos não são os jovens que optam por uma carreira devido às pressões familiares?

A moral, que nasce da fraqueza, do ódio, do medo, da vingança, generalizando valores sem contestar as singularidades inseridas na vida do sujeito, é uma ameaça a ele e à sociedade, pois afirma-se pela repetição e irracionalidade, invertendo valores ou causando a ausências deles.

Nesse sentido, o sujeito, sem vontade, deixa de agir dentro de sua verdade. Mas é na ação genuína, proveniente da fidelidade consigo mesmo, que o Homem faz escolhas autênticas, tornando-se o maestro de sua história.


Texto escrito especialmente para a Revista Infame. Publicado em 19/12/2017.

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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