Depoimentos

Escrever, Priscilla Englherth

Faz tanto tempo que não escrevo um texto, que me sinto estranho digitando. Me faz falta um lápis ou uma caneta. É como se esses objetos fossem uma extensão da minha mão. Algo como uma veia exposta que vai sangrando no papel e dando forma ao que quero dizer. Me faz falta olhar minha caligrafia enquanto escrevo. Toda inconstante, misturando tudo, tipos de letras, tês mal cortados, maiúsculas preguiçosas.  Uma hora, quase um desenho. Noutra, um garrancho. Revela tudo de mim.

Por isso digo que o ato de escrever é semelhante ao ato de se despir em público. Mostrar os defeitos, as cicatrizes, as marcas do tempo, as vergonhas.

E é preciso tomar cuidado, senão posso ir muito além de me despir. Posso me rasgar, expor meus órgãos, fígado , rins, vísceras e o pior: o coração. Expor meu coração todo vermelho, sangrento, bombeando sangue. Que horror!

Coração não foi feito pra isso, não! Coração foi feito para amar. Para doer de amor. Mas enfim, não sei nem usar as vírgulas, quem dirá amar. Ou foram as vírgulas que me levaram a amar de uma maneira incomum. Não sei amar num fôlego só. Amo, coloco uma vírgula, depois dela um porém, outra virgula, amo de novo. E aí fica faltando aquele mergulho profundo, amar sem barreiras, sem volta.

Então, enquanto escrevo e me desnudo e me rasgo inteiro, vou procurando nas entrelinhas onde está o defeito do meu coração. Acho que devo começar justo por esse medo de falar de mim. Medo que me leva a escrever no masculino, sendo eu uma mulher. Mulher? Mulher não. Mulher são as meninas que cresceram. Eu fiquei para trás.

Não soube crescer ou tive medo. Um medo enorme de errar. Medo de olhar para trás e ver que fiz errado. Prefiro viver como se não houvesse passado. Tenho tanto medo que não releio um texto. Se reler, não vou achar bom. Vou achar que vão descobrir que estou falando de mim mesmo. E então vou querer apagar. Apagar a nudez, os amores, o passado. Talvez a vida.

Por isso continuo, palavra por palavra, tentando encontrar em que momento por o fim. Outro medo: o do ponto final. Quero sempre ir continuando para não precisar desse momento tão decisivo. Medo de terminar no momento errado, achando que esperariam mais. Ou esperar demais, e tudo ir perdendo o sentido, ficando tão chato que o fim virá pelo abandono, de quem já não aguenta mais. Por isso escrever é um bom treino. Um bom começo para aprender a ter atitude e colocar um ponto final.

O meu ponto final. Na hora em que eu achar que devo.

Priscilla Englherth

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