Seu Umbigo

Cotidiano, por Priscilla Englerth

Texto de Priscilla Englerth 


Preciso cuidar obsessivamente dos meus 64 kg.

Todo dia na ida e na volta do trabalho me peso na mesma balança. Tenho vergonha dos atendentes da farmácia. Mas a necessidade de ter certeza é maior do que a vergonha.

No final do dia, volto pra casa correndo.

Meu filho pequeno tem judô. Passo para pegá-lo na escola. E ele vai vestindo o kimono no carro, porque (como sempre)  já estamos atrasados.

Paro o carro numa rua atrás da academia, pois não tem mais vagas onde costumo parar. Respondo e-mails enquanto ele faz a aula. Faço também uma lista de mercado. Pesquiso o valor do anti-pulgas na internet.

Sempre dou carona a uma mãe e um amiguinho que moram próximos.

Na saída da aula, passamos para comprar churros para os meninos. Está chovendo. Venho carregando bolsa, mochila e guarda chuva. Um sacrifício para pegar a carteira e pagar os doces, segurando o guarda chuva com o queixo e revirando a bolsa. No meio disso a chave do carro aparece. Já pego na mão para adiantar o que terei que fazer mais lá na frente.

Então saímos todos para atravessar a rua. A bolsa, a mochila, a lancheira, o guarda chuva, o churros, chave do carro, a faixa do kimono, duas crianças e outra mãe em situação idêntica.

Do outro lado da rua, aperto o botão do alarme para abrir o carro. Nada. Aperto de novo e de novo. Nada. Então forco a maçaneta. Não era o meu carro. O alarme dispara. Meu Deus, que vergonha!

Olho para trás e vejo a platéia toda rindo de mim. Mais uma comédia do tipo pastelão encenada por mim. Rio também, porque rir de mim mesma é o que faço de melhor. E fico pensando se um dia vou conseguir agir como uma pessoa normal.

Pensando bem, acho que nem quero. Divirto-me comigo mesma e isso é ótimo. Tenho uma personalidade surpreendente – que surpreende até a mim mesma. Ninguém me leva muito a sério, tampouco eu.

Defino-me assim: mato baratas e ouço heavy metal. Não saio sem rímel, mas vou à padaria de pijama. Minha droga preferida é o açúcar, mas estou em abstinência. Minha vontade de viver ainda é maior do que a de morrer. Sou frágil – mas descobri um dia que podia entrar em uma caixa bem protegida e me manter lá dentro, basta manter “este lado para cima”.

E assim vou seguindo a vida, com o lado certo para cima. Só não me balance, por favor. E nem empilhe nada em cima de mim.


 

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