Crônicas Deborah Brum

Copa 2014

O  jogo  transcorria  numa  monotonia:  Brasil  0  x  México  0.  Sentávamos  espalhados   nas  cadeiras,  em  volta  de  uma  enorme  TV,  comendo  aperitivos  e  aguardando  o   churrasco  ficar  pronto.  Um  clima  de  confraternização,  típico  de  brasileiro  na   Copa  do  Mundo.  O  jogo  estava  lento,  a  bola  não  chegava  à  rede  e,  quando  parecia   que  entraria,  era  barrada  por  um  goleiro  mexicano  sem  sombreiro.

Eu, entediada, levantava-me  toda  hora  para  ir  fumar  na  varanda – afinal,  quem  é   fumante  sabe  que,  ao acender  um  cigarro,  o  tédio  vira  fumaça.   Às  vezes,  vibrávamos  com  alguns  passes,  contando  com  as  habilidades  motoras  de  Neymar,  mas  assim  como  o  tédio, que  virava  fumaça,  a  esperança  se  tornava   frustração.

Ainda  no  primeiro  tempo,  Pedro,  com  uma  folha  na  mão,  me  surpreendeu: “Mãe, posso ler  uma redação que tive que fazer para a aula sobre  futebol?”

Antes  de  ser  uma  torcedora,  devo  ser  uma  mãe  atenta  e  paciente  – até   mesmo  numa  disputa  de  Copa  do Mundo -,  e respondo:  “Posso  ler,  filho?  Eu  prefiro. Assim,  presto  mais  atenção.”  

Ele,  entediado  pelo  jogo,  diz  que  tem  que  ler  para   dar  a  verdadeira  entonação  do  texto.  Aceito.  Num  átimo,  desligo-me  do  jogo  e   foco  todos  os  meus  sentidos  para  escutá‐lo.

Numa  ânsia  de  querer  ser  escutado,   fala  rápido  demais;  peço  que  volte  ao  começo  da  frase,  respire  e  leia calmamente,  sem  pressa,  afinal  o  jogo  está  lento,  demorado  para  passar.  Recomeça,  agora mais tranquilo.

Percebo  que  sua  gramática  está  melhor,  seu  vocabulário  mais  extenso.  Comprovo   que  minhas  intervenções repetitivas  em  seus  textos  quanto  ao  uso  da  vírgula   surtiram  efeito.  Fico  orgulhosa  dele,  de  mim  e  da  escola.

Finalmente,  ele  está   entendendo  que  na  vida  sempre  existe  uma  vírgula.  Suas  considerações  são   práticas, pragmáticas,  sem  dar  importância  aos  valores  estéticos  de  um  “futebol   arte”:  o  importante  é  ganhar,  colocar  a  bola  na  rede,  marcar  gol,  ou  seja,  resolver   o  jogo  mirando  a  rede.  Foco.

Ele  lia,  eu  analisava:  havia  bons  argumentos   para  justificar  a  falta  de  “arte”  no  futebol  atual. Entre uma palavra  ou  outra,  parávamos  para  ver  se  Neymar  ou  um  atacante  mexicano  marcavam  um  gol… Entretanto, nada  acontecia.  Ver  Felipão  nervoso  era,  sem  dúvida,  o  melhor  daquela   partida.

Voltávamos  ao  texto  e  ele  continuava  a  argumentar.  Em alguns momentos,  eu imaginava o professor  discordando  da maneira  competitiva  com  que  Pedro  vê  o  esporte.  Porém,  para  minha  surpresa,  aquele  menino,  meu  filho, colocou  uma  frase  da  bíblia  para  justificar  um  erro  de  um  certo  goleiro  da  Copa  de  1950.

Meu  coração   disparou!  Já  não  entendia  mais  nada!  Como um  menino  de  pais  agnósticos  menciona Deus  num  texto  sobre  futebol?  Ele  acredita  em  Deus?!  Pior… acha  que  Deus  é  brasileiro?

Procuro  me  acalmar  para  que  ele  não   considere  meu  espanto  uma  decepção.  Mas  ele  percebe.  Diz:  “Você  não  gostou   muito  do  final,  né?  É  porque  eu  falo  de  Deus,  mãe?

Respondo – fazendo  um   gol  sem  drible nem  passe:  “Acho  que  usar  argumentos  religiosos  não  é  válido.  São  argumentos  frágeis,  como  fumar  para  espantar  o  tédio  num  jogo  chato  de Copa do Mundo”.

Ele  me  olha,  concorda  com  a  cabeça  e  diz  que  vai  refazer o texto. Eu digo que  não  refaça. Ficamos  abraçados vendo o resto  do  jogo. Em  lances  perigosos, gritávamos, falávamos  palavrões.  Nenhum  lance,  drible,  ou  quase  gol, foi tão espantoso como  ouvi-lo  falar  de  Deus.

Porém,  no  seu  texto  algo  me  aliviou:   existe  nele  um  certo  tom  darwinista,  o  forte  vence  o  fraco. Ao menos,  ele  não mencionou Adão e Eva…

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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