Eu choro um choro que ninguém escuta, só eu – pensa Cloe enquanto coloca uma meia para esquentar os pés, sempre frios. Aguardaria seu pai com alegria se a separação de seus pais não fosse tão recente, porque Carol, sua amiga, que também tem pais separados, fica ansiosa, feliz, quando é o final de semana do pai. Mas Cloe não sente isso, pois a dor é proporcional ao tempo discorrido, e isso ela ainda não aprendeu. Faz pouco tempo: quatro meses apenas.

Coloca o tênis e confere a mochila: duas calças, um moletom, a camiseta predileta está na mala, cinza com um trevo preto desenhado. Acha que dá sorte. A primeira vez que ficou com André, o menino mais popular da escola, Cloe estava vestida com ela. Depois de um beijo daquele, era demais, não seria coincidência ter um trevo de quatro folhas estampado no peito quando o peito quase saltou.

Não colocou biquíni, esqueceu. Não está à vontade com seu corpo; queria mais peito, barriga chapada, menos bunda, talvez. Acaba por escolher um maiô porque esconde um pouco mais e a deixa mais confortável diante dos amigos de seus primos. O pai chegará logo, e irão para fazenda do avô paterno, em Itu. Lembra-se do orelhão enorme, na Praça principal, e da foto que tiraram dela, quando criança, com o orelhão ao lado – e hoje ela ainda a tem. E sua alegria era imensa também quando passava as férias na fazenda. Família reunida sempre lhe pareceu algo bom. Os pais, tios, primos, avós, amigos e Dona Zumira, a caseira, que fazia o melhor bolinho de arroz. E na piscina, logo depois de andarem a cavalo, Cloe era a primeira a vestir um biquíni e pular na água… Tchuá!

– Já está pronta, Cloe? – grita sua mãe da sala. – Seu pai chega em quinze minutos!

Sente pena de deixar sua mãe sozinha por dois dias. Não é fácil para ela, sua mãe, que sempre acordou a filha, aos domingos, passando-lhe mel nos lábios porque, dizia, o doce da vida é sentido primeiro na boca.

– Já vou, mãe!

Cloe confere mais uma vez a mochila. Não falta nada desta vez. Desce as escadas e, sem que sua mãe perceba, a observa. A mãe olha um álbum, mas o fecha assim que a vê.

– Mãe, você vai ficar bem?

– Claro, filha. Com saudades, mas bem. Você, por favor, aproveita bastante, hein? Promete?

– Sim… mãe. Você lembra do morro da fazenda? Aquele que era o final das terras?

– Claro, Cloe! A gente ficava horas olhando para ele.

– Você lembra do que você me falava?

– Lembro, filha…

– Repete, mãe?

– Está vendo aquele morro, Cloe? Seu avô diz que lá é onde acaba a fazenda. Mas para mim, minha filha, o fim pode ser o começo. Se a gente estivesse no morro, aqui seria o fim. Acho que o fim pode ser onde, mas também pode ser aonde, para onde… depende de quem olha.

A campainha toca.

O pai chegou.

Hora de ir.

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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