Deborah Brum

As Férias

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Para o Jornal d’Aqui

ferias_01As férias podem ser um momento de reflexão, um ócio criativo.

As férias, além de serem diversão, podem ser um momento de reflexão, um ócio criativo ou  transformador, como afirma Domenico De Masi, sociólogo e cientista italiano, no seu livro “O Ócio Criativo”.

Não ter horários rígidos, deitar numa rede e contemplar a natureza, o som do silêncio, os batimentos do coração que, no dia a dia, não percebemos, a respiração, assistir a um bom filme comendo pipoca, sem pressa, sem vergonha de estar sendo inútil numa sociedade que desvaloriza o ócio, mas incentiva o consumo das falsas necessidades criadas pelas indústrias, de qualquer maneira, pelo Homem.

ferias_02Ir ao parque com os filhos numa segunda-feira, namorar fora das horas convencionais, beijar na boca sentindo os lábios, largar o celular e o computador, comer quando se tem fome, ler um bom livro ou, quem sabe, descobrir o prazer da leitura.

É evidente que, assim como tudo na vida, temos literatura de boa e má qualidade; porém, nesta matéria, não tenho o objetivo de fazer crítica literária, mesmo porque, acredito que, nós, adultos, já temos o direito de ler aquilo que quisermos, sem culpa, e o dever de respeitar o gosto de cada um. Na literatura infantil e juvenil a questão é outra, mas falarei disso numa próxima matéria.

ferias_03Como afirmei anteriormente, as férias podem ser um momento de reflexão, de descobertas, de quebra de paradigmas, de preconceitos, momentos de exploração, de conhecer o bom ou o ruim, ou seja, de se abrir para a vida de uma nova maneira, e criar um novo olhar.

Afirmo com tranquilidade e certeza, sem presunção, que a literatura é transformadora, uma janela aberta para infinitas paisagens, aguardando alguém que queira contemplar a vida. Por isso, se você ainda não é um leitor assíduo, tente nestas férias descobrir o bom livro para você, aquele que lhe tocará a alma, que lhe revelará, formas diferentes de olhar o mundo.ferias_04

Aos leitores assíduos, acostumados a abrir a janela a cada página virada de um livro, sugiro que compartilhem suas experiências com a leitura, entre amigos, com sua família, com o garçom, com a caixa do mercado que você vai, numa conversa despretensiosa, nos encontros que a vida nos proporciona todos os dias.

Com 16 anos, tive dois grandes encontros que marcaram para sempre minha vida: o primeiro com Clarice Lispector (A hora da estrela); o segundo com Kafka (A metamorfose). Estes encontros preencheram-me de algo que na época não entendia, provavelmente por conta da imaturidade, mas, mesmo não sendo compreensíveis para aquela menina que era eu, algo foi despertado, e eu me transformei.ferias_05

Percebo hoje, entretanto, que Macabéa, a pobre Macabéa, era o oco que, naquele momento, numa época conturbada da adolescência, ela era um pouco eu, ou eu era ela. Ao mesmo tempo, “esquerdinha” como eu era, conseguia enxergar tantas macabéas quando voltava da escola no ônibus, Vila Gomes, andando arrastada por não me sentir inserida na Rebouças, nos “Jardins”, observando tantas e tantas macabéas, que me eram tantas, mas vistas por tão poucos. Foi com ela, Clarice, que descobri quem eu era.

ferias_06O segundo encontro, o preenchimento ainda mais completo, tive com Kafka quando li A metamorfose. No quarto, sozinha, deitada na cama, abri a primeira página. Sim. Novamente eu me vi no personagem, Gregor Samsa, um homem que acordou inseto, com o peso de ter que carregar uma carcaça dura, rígida, que impedia os movimentos leves, suaves na vida. O quarto. Ele sempre no quarto tentando entender sua metamorfose, a existência. Então, numa só tarde, li todo o livro e chorei. Minha existência era compreensível agora: eu era um pouco Macabéa, um pouco um inseto. E, desta forma, ve
ferias_07ndo que aquela dor que eu sentia, os questionamentos que me afligiam não eram só meus, eram também de outros, de tantos outros, acalmei. Com eles, cresci, amadureci e abri outras janelas, outras possibilidades de existir.

Desejo a todos paz, felicidades, renovação, e que tenham nestas férias alguns encontros mágicos como eu tive nas leituras que até agora eu fiz, pois sempre há uma página a mais para ser lida!

Seguem abaixo algumas dicas de possíveis encontros!
Boas férias e até a próxima matéria… Será uma surpresa boa!!!!

Madame Bovary, de Gustave Flaubert
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarisse Lispectorferias_08

Contos de imaginação e mistério, de Edgard Allan Poe
Desterro, de Luis S. Krausz
Não é maia-noite quem quer, de Antonio Lobo Antunes
A arquitetura, de Jessie Burton
Declaração de Amor, de Carlos Drummont de Andrade
Gratidão, de Oliver Sacks
O frango ensopado da minha mãe, de Nina Horta
Coleção Agatha Christie com 3 volumes
A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe
A metamorfose, de Franz Kafka

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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