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Análise: Onde tem bruxa tem fada…

Análise do livro “Onde tem bruxa tem fada…”, de Bartolomeu Campos de Queirós, para pós-graduação. Professora: Lenice


 Introdução

Não. Não foi fácil fazer este trabalho; na verdade, ainda estou tentando encontrar um caminho, uma entrada para que eu o desenvolva enquanto procuro a ideia perdida – ou melhor, não encontrada -, porque eu, leitora de Bartolomeu, me modifiquei tanto.

Quando os livros passaram de mãos em mãos, durante a aula, restaram-me poucos – três ou quatro. Na hora, sem dar conta de que eu não sou mais aquela mulher de oito anos atrás, escolhi, sem pestanejar, “Onde tem bruxa tem fada…”, obra de Bartolomeu Campos de Queirós. Lembrei-me, naquele instante, da aula com Claudio Fragata, professor e amigo, que, em sala de aula, enquanto lia “O Peixe e O Pássaro”, obra que até então eu não conhecia, me levou a um estado reflexivo tão intenso, tão próximo do vazio silencioso, que eu chorei –  choro porque o vazio também transborda.

A partir daquele momento, qualquer livro (ditos infantis/juvenis), que não provocasse uma espécie de descolamento do meu Eu, não me servia. Mas eu conhecia pouco a literatura infantil, o que limitava minha busca para reviver aquela sensação na qual não tive controle. Sem o controle de mim, já que o autocontrole é consequência de um entendimento sobre si, li e reli os livros de Bartolomeu.

Essas coisas: oito anos atrás.

Desta vez, no entanto, a primeira impressão que tive, ao reler a obra “Onde tem bruxa tem fada…” é de que o autor, como fazedor de metáforas, exige que nós, leitores, construamos a obra junto com ele e que sejamos também parte da criação de suas obras. Mas para que isso aconteça de forma afetiva e mais prazerosa, não é necessário que o leitor tenha uma certa vivência? O ato de imaginar, o mais importante prazer proporcionado pela concretização, aqui, nesta obra, não é negligenciado em detrimento ao tema, a mensagem ou intenção do autor?

Este trabalho é, dessa forma, menos acadêmico do que deveria ser, pois mesmo fazendo a análise da obra e a estruturando a partir da teoria de Perry Nodelman, fui eu que me senti tão diferente de oito anos atrás.


Análise

Maria do Céu, cansada de ser ideia, retorna à terra com a intenção de tornar real os sonhos das crianças, mas fica decepcionada ao ver que o capitalismo ocupou a vida das pessoas, e estas não dão mais valor à imaginação, à fantasia, aos desejos.

De frente a uma sociedade assim e sem entendê-la, Maria do Céu sente-se inútil, pois percebe que as crianças só valorizam as coisas materiais que os mágicos podem proporcionar (banqueiro, engenheiro, prefeito, etc. – personagens que aparecem como representantes do capitalismo).

Desiludida, Maria do Céu percebe que não tem tantos poderes, afinal ela só pode deixar os corações felizes.

Resolve, então, voltar para o céu e virar novamente ideia. No entanto, quando reflete diante da situação, e sobre a “esperança que sossega”, que retira das crianças os desejos, Maria do Céu decide morar na Terra e se fazer fada definitivamente.

Numa sequência de ações com as quais Maria do Céu é obrigada a se defrontar, o autor constrói a trama para revelar os personagens do livro.

Maria do Céu é presa – Maria, ideia condenada, resolve usar seus poderes de fada: vira  vagalume.

Existem traços de uma literatura moralizante presentes na estrutura deste texto de Bartolomeu, seja pela predominância do tema sobre outros aspectos estruturais, seja pelo discurso escolhido pelo autor.

Em “Onde tem bruxa tem fada…”, logo no título, a pontuação – no caso, as reticências – já é um elemento proposital da estrutura que Bartolomeu irá utilizar neste livro – funcionam para produzir uma ironia, algo que aparecerá no texto como padrão. Utilizando de uma prosa extremamente poética e de uma linguagem rica em alegorias, Bartolomeu constrói uma narrativa crítica e simbólica ao mesmo tempo.

Publicado em 1979, em plena ditadura, o livro tem como tema a crítica ao capitalismo e às coisas que o constitui.

Narrado em terceira pessoa, como se um adulto estivesse contando uma história de contos de fadas, a história, com o foco em Maria do Céu (protagonista), revela personagens e um discurso altamente crítico, refletindo sobre a perda da fantasia no mundo moderno e sobre os desejos infantis que, no capitalismo, não estão mais vinculados ao imaginário, mas à uma realidade abusiva de poder.

No trecho abaixo, observamos uma prosa poética impregnada de alegorias, estruturado dentro de um padrão que aparecerá em várias partes do texto.

“Maria era uma fada que olhava e gostava de saber das coisas. Assim, escutando, ela descobriu que os outros mágicos tinham invadido a Terra e faziam coisas incríveis:

            bicicletas com trote de cavalo

            chicletes com vitaminas do super-homem

             refrigerantes com sabor de vitória

             televisão com poeira de guerra

             petróleo com gosto de sangue

             míssil mais feroz que a ambição.”

Na obra, a narrativa, por vezes, está contaminada pela exemplaridade e reflexão da visão do adulto e, assim, é negado à criança o prazer do presente narrativo. A relação entre o pequeno leitor e o texto, quando o tema, a mensagem que o autor quer passar é mais importante que outros elementos estruturais, não é prazerosa, mas disciplinadora. Assim, “Onde tem bruxa tem fada…” ganha um caráter ambivalente, uma vez que se volta para uma literatura infantil, mas marcadamente pedagógica. Personagens, trama, estrutura, narradores e o discurso, estruturas fundamentais para que o leitor dê um sentido às obras, são impregnados de convenções e práticas que se remetem às representações dos adultos, num determinado contexto sócio-histórico, caracterizando uma visão utilitarista da literatura.

 Michel Foucaut, em “Vigiar e Punir”, descreveu os diversos processos de disciplinarização dos corpos em diferentes instituições. A literatura moralizante, portanto, não deixa de ser um exercício do poder do autor através da linguagem literária pois, ao invés de incentivar que o pequeno leitor enriqueça sua experiência diante do  prazer da leitura, ressalta os valores morais e distingue conceitos subjetivos.

E, novamente, me pergunto: o ato de imaginar, o mais importante prazer proporcionado pela concretização, aqui, nesta obra, não é negligenciado em detrimento ao tema, a mensagem ou intenção do autor?

Eu responderia que sim. Embora o autor faça uso de uma linguagem poética, quase onírica, enfatizando o simbólico a fim de abrir o caminho para a imaginação e para a fantasia, principalmente quando o narrador está “colado” em Maria do Céu, em outros trechos narrativos, quando o narrador se distancia desta personagem e narra sequências de ações usando palavras técnicas (CEP, CPF, etc), o texto adquire uma característica moralizante e nos afasta da imaginação, do prazer.

Por fim, seria bom que nos lembrássemos de uma frase de Bartolomeu: “A literatura é isso:  é aquela que você gosta; então, você passa pra frente. Texto bom, você passa pra frente. Isso que vale a pena. Agora, se é infantil, ou não, depende da gente”.

O leitor implícito – a criança que nos habita -, se modifica com o tempo. Com certeza, aquela criança que em mim existia há oito anos, hoje, precisa de outra coisa: ela quer apenas conversar com o livro – e isso é urgente.

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