Contos Deborah Brum

Amarilis

bocaO quarto de Amarilis era escuro. Alguns móveis, poucos objetos decorativos sobre uma prateleira de imbuia, uma cortina de veludo vermelho, desgastada. Sobre o criado mudo, a caixa de costura era, de fato, quando aberta, a única manifestação de cores revelada através das linhas de bordar. 
Quando bordava, sentava-se numa poltrona puída, herança de família. Gostava dos tons pastéis: flores, pássaros, a natureza sendo exposta sobre um linho leve e claro. As mãos delicadas de Amarilis, alvas e macias, desenhavam no espaço movimentos suaves ao transpassar com a agulha o tecido, imprimindo nos gestos curvos e graciosos um pouco de si. 
Por isso, para mim, foi uma surpresa ao me ver nas mãos de Amarilis; logo eu, um carretel de linha vermelha, cor de sangue vivo. Confesso que, por um momento, me senti coagido, pois jamais havia sido retirado da caixa de costura. Amarilis , abruptamente, cortou um pedaço grande da minha linha. Nesta hora, sua mãe bateu na porta: – Amarilis, abra a porta! Amarilis, você não sai deste quarto? Amarilis, precisamos conversar?! Amarilis, saía já! O que lhe deu, menina? Está louca? Amarilis!. Bateu uma última vez e desistiu. 
Amarilis pegou a linha, passou por dentro do buraco da agulha e deu o nó. Por instantes, fixou o olhar na agulha e disse: – Não tenho mais nada a falar nesta vida. 
Num gesto agressivo, perfurou sua pele, no canto da boca, deixando escorrer o sangue pela linha vermelha. Rapidamente, alinhavou a boca. Da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, até a boca franzir com um arremate violento. 
Amarilis que não queria mais falar, nunca mais bordou com tons pastéis.

Deborah Brum
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Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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