Deborah Brum

A mulher e um Buraco

Imagem: Mikhail Nesterov

A sala fria, escura. Deitada na maca, o monitor à  frente. Aguardava o médico que estava atrasado, passando a língua entre o incisivo lateral e  o primeiro molar. Ainda jovem, na quarta e última gravidez, chupando uma bala dura para se aliviar do enjoo, perdeu o dente canino direito. Desde então, nervosa em alguma situação, passava a língua no buraco adquirido pela falta do dente.

A porta foi aberta e um médico robusto adentrou a sala, vestindo um jaleco encardido e mal passado. Ela reparou nos detalhes do jaleco, nas imperfeições das dobras, no amarelado de uma roupa que não fora bem lavada. Pensou que ele, o médico, não tinha esposa ou que, talvez, aquele homem era tão econômico como ela.

Ele sentou-se antes de falar bom dia. Ligou o ultra-som, colocou um gel gelado na barriga flácida da mulher, provocando um arrepio profundo de frio e pânico.

Sentiu um hálito de alho da boca do médico. Ficou nauseada com o  odor. Fechou os olhos e procurou na memória a imagem do pai para minimizar os sons  que provinham das marcações que o médico fazia sobre seus órgãos. Sentiu-se invadida, incomodada em ser revelada por dentro. Involuntariamente, a língua passava e repassava por entre os dentes, no buraco, como quisesse lhe lembrar, a língua, que um dente lhe faltava na boca, assim como a imagem perdida de seu pai, cuja memória se esqueceu de lembrá-la.

Ainda de olhos fechados, ouviu o médico chamar seu nome:

– Senhora Amparo da Silva Cruz?

– Isso mesmo, doutor.

– A senhora tem um carcinoma no fígado com metástase no pâncreas, baço e intestino. Resta-lhe pouco tempo, máximo três meses.

A enfermeira que acompanhou o exame, entregou-lhe um papel para que ela enxugasse a barriga antes de vestir-se. Levantou-se , foi ao banheiro, colocou as roupas e o sapato deformado pelo joanete.

Caminhou até o ponto do ônibus ainda nauseada pelo hálito do médico, sem entender o que significava três meses de vida  numa vida em que nunca fora amparada.

Decidiu voltar para casa caminhando, observando as ruas, as pessoas, sentindo na língua o buraco na boca. A falta do canino lhe dava vergonha, embora, não raramente, era um fator de orgulho, pois, era por vezes, o buraco,  a constatação de que era uma mulher econômica e que vivia amparando a todos.

Amparo amparava o marido.

Amparo amparava os filhos.

Amparo amparava os netos.

Amparo amparava os pobres.

Amparo nunca fora amparada.

Impactada pela notícia do câncer e da iminente finitude da vida, a memória fez-se presente como nunca. A língua entre os dentes, no buraco, e a vida sendo relembrada a cada passo.

Numa esquina de uma rua movimentada, uma loja de vestidos de noivas. Eram bordados com pérolas, pedras, detalhes de renda nas costas insinuavam as curvas de um corpo de mulher. Na época que casou, ainda moça, aceitou não casar na igreja, vestida de noiva, pois o noivo, hoje, seu marido há quarenta anos,  sempre achou que desejo era algo a ser sublimado.

Os barulhos dos carros, as gargalhadas sem pudor no meio da rua, o sol a pino aguçando seus sentidos e a certeza que aquele câncer era deveras inapropriado para alguém que nunca fumou, bebeu ou se entregou às tentações do mundo, despertaram em Amparo o desejo de se amparar e fazer uma prótese do canino perdido. Não queria morrer com um buraco na boca.

Há mais de trinta anos usava uma colônia barata, dessas que se compra em qualquer farmácia. Nunca havia usado um perfume francês,  uma fragrância sofisticada. Os prazeres mundanos, que preenchem uma mulher, haviam sido arrancados de sua vida quando seu marido, após terem a quarta filha, implacavelmente, disse a ela que uma mãe de verdade, uma mulher de família, não era alguém que devesse gozar com o marido e com ninguém. Amparo, sem amparo, nunca mais fez sexo.  Recordou-se que, muitas vezes, tentou excitar seu marido acariciando seu corpo com as pontas dos dedos, mas ele, abruptamente, empurrava suas mãos para longe de seu corpo, alegando que nada era mais constrangedor a um homem do que ver a mãe de seus filhos apalpar as partes íntimas do marido. Acostumou-se com a falta, incorporando em si um desejo de não possuir nada, nem mesmo o dente que lhe faltava.

Concluiu que, antes de morrer, marcaria um dentista e faria sexo com o marido. Esses seriam seus últimos desejos e, mesmo não sendo amparada, mas sendo Amparo, mereceria ser atendida antes que o câncer lhe roubasse a vida e enterrasse suas vontades. De súbito, uma energia de vontade foi despertada perante a angústia do fim. Como o fim era breve, acelerou os passos para chegar rapidamente em casa, marcar o dentista e buscar no corpo de seu marido o gozo reprimido por anos.

Chegou em casa, silenciosa, observou o marido deitado, dormindo na poltrona reclinada, envolvido num cobertor. Pensou que, em todos estes anos, ele, mesmo no verão, sentia frio. Pensou porque aquele homem se transformara numa massa gélida, empobrecida de sentimentos quentes. Ligou para o dentista e marcou um horário para o dia seguinte. Ela sabia que tampar o buraco de um dente canino requeria um tempo longo, o qual não tinha.

Não faria o jantar nesta noite. Estava decidido. Amparo não ampararia mais ninguém. Restavam-lhe três meses, no máximo, para sentir um último orgasmo, um amparo proveniente do instinto mais visceral, mais primitivo.

Acordou o marido, acariciando sua genitália. Reparou que seus dedos grossos e curtos, sem esmalte, estavam mais tortos por causa da artrose. O homem acordou assustado ao sentir uma pequena ereção.

– Que isto mulher? Endoideceu?

Ela continua apalpando-o. Ele, violentamente, levantou-se da poltrona como quem foge de um segredo antes que este seja anunciado em praça pública.

– Tenho um câncer no fígado, metástase no pâncreas, intestino e baço. Falta-me o canino. Falta-me um último orgasmo. Resta-me, no máximo, três meses de vida. Marquei o dentista. Prometa-me que, no leito de minha morte, você me vestirá de noiva. Comprará um vestido bordado com pérolas. Prometa!

O homem atordoado pela notícia e, por não reconhecer naquela mulher sua esposa, calou-se.

Prometa! – gritou, a mulher.

Sussurrando, ele prometeu.

Já debilitada pelo tempo, passado apenas um mês, Amparo colocou sua prótese. A língua já não tinha como passar por entre os dentes. O canino, mesmo sendo artificial, era forte, resistente. Olhou-se no espelho e sorriu. O dente branco e novo se destacava na sua face, agora cadavérica e amarelada. O câncer  cresceu mais rápido do que o tempo;  a vontade de Amparo cresceu mais rápido do que o câncer.

– Você já comprou meu vestido de noiva? – perguntou ao marido.

– Mas já está na hora?

– Veja, homem! Percebeu que já tenho o meu canino? Percebeu que meu tempo é curto? Não percebe nada? Nada? Nunca?

– Comprarei hoje a tarde.

Quando o marido saiu para lhe comprar o vestido, Amparo deitou na cama. Sabia que não conseguiria se levantar mais, que  lhe sobravam algumas horas ou dias. Esperou tranquilamente a volta do marido, lambendo o dente canino, lembrando que sempre quis pintar a casa de vermelho, mas o marido sempre quis bege. “Por que bege? Cor tão sem graça”. Cochilou. Foi despertada pelo marido que segurava um vestido branco, lindo, de noiva.

– Aqui está.

– Vista-me.

O homem constrangido por ter que tocá-la, tirou-lhe a roupa como estivesse num procedimento cirúrgico, o qual não pudesse errar.

Ela vestida de noiva e com o dente canino reluzente, disse:

– Faça sexo comigo. Agora. Levante meu vestido e me penetre forte, sem suavidade.

– Não posso. Não consigo- respondeu com a voz trêmula.

– Não posso morrer assim. Ampare-me como sempre lhe amparei.

O marido comovido com a morte e, não com ela, tirou as calças, envolveu seu pênis na própria mão até sentir o prazer sublimado por tanto anos.

Penetrou a mulher com força. Seus movimentos repetitivos ficavam cada vez mais rápidos.

Rápidos eram os movimentos.

Rápidos eram os prazeres.

Rápido era o câncer.

Rápida era a vida.

Ele sentiu o coração acelerar, o pênis penetrando a esposa, o corpo arder, o gozo, a ejaculação involuntária do instinto que reprimiu.

Gozaram juntos.

Num gemido de prazer, ela fechou os olhos.

Morreu preenchida de sêmen e com o canino na boca.

Não tinha mais buraco.

Deborah Brum

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa. Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

É mãe, casada e feliz. Está viva quando escreve. Tem medo de não ser o que é, apesar de amar a ficção e achar que ela vale a pena. Vive com a incerteza plena que, paradoxalmente, traz a certeza mais dura: a morte. Sonha em publicar livros bacanas, ter uma família grande e morar em Cumuruxatiba, o seu lugar!

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